Respeitar Pai e Mãe

Iniciante

(Iniciante)

Sem dúvida alguma, um dos relacionamentos mais marcantes que temos em nossa vida é com os nossos pais. Isso explica porque essa primeira relação humana é tão estudada pelas mais diversas áreas – da sociologia à psicologia. Como não podia deixar de ser, a religião tem muito a nos falar sobre isso.

Para muitas pessoas, o sentimento que os filhos devem ter em relação aos pais é amor. A Torá, no entanto, discorda, e diz que o mais importante é que os filhos sintam respeito por seus pais.

Veja, não quer dizer que o amor não seja importante. Claro que é. E se um filho puder sentir amor pelos seus progenitores, isso é maravilhoso. Mas segundo a Torá esse não é o essencial, não é o mais importante, e sim o respeito.

Respeitar pai e mãe é o que nos pede o quinto mandamento. Em uma época em que se vê cada vez mais como são poucas as crianças que cumprem a regra, é interessante se perguntar se a Torá não estava deixando uma lição particularmente importante para o nosso tempo.

A verdade – embora difícil de engolir – é que muitas vezes essa falta de respeito é culpa dos próprios pais. Por motivos que não cabe analisar neste texto, é cada vez mais comum ver pais que oferecem tudo que podem a seus filhos sem, no entanto, exigir nada em troca. As crianças leem esse comportamento como um sinal bastante claro: eu tenho direito a tudo sem precisar fazer nada – o mundo me deve, meus pais me devem. Tudo que eu tenho que fazer é cobrar.

Mais saudável seria que desde cedo a criança já tivesse obrigações a cumprir no lar e no seio familiar: ajudar a preparar alimentos, a arrumar a casa, a realizar as compras da casa ou simplesmente fazer pequenos favores quando os pais pedem (trazer um copo de água, alcançar um livro, buscar o controle remoto).

Repare que não se trata de dizer não para as crianças e “colocar limites”, como se costuma falar por aí (embora isso também seja importante e tenha seu valor na educação). Não se trata de dizer: você não pode comer um doce agora ou você não pode jogar videogame. Se trata de pedir que a criança faça pequenas tarefas, de que ela aprenda fazer algo pela casa e pelos pais, que aprenda o valor do respeito pelo outro.

Feito isso, inevitavelmente à medida que a criança vai crescendo ela internaliza que os pais são a única autoridade no lar (e não os filhos), e ela automaticamente irá respeitá-los e obedecê-los.

Agora vamos pensar um pouco no cumprimento do mandamento por parte dos filhos. É impressionante quantas perguntas eu recebo que seguem mais ou menos nessa linha de raciocínio:

“Meus pais (ou um deles) nunca me deram nada e nunca se preocuparam comigo. Foram pessoas realmente más (às vezes relatos de abandono físico e emocional), que só me maltrataram, me usaram ou pior… eu ainda assim tenho que respeitá-los?”

E a resposta é sim, por um simples motivo: esse respeito aos pais não se trata de retribuir ao que os pais fizeram ou deixaram de fazer por nós. Não se trata de reciprocidade – meus pais fizeram muito por mim e por isso eu sou obrigado a fazer por eles (até porque nunca haveria reciprocidade real e “justa” numa relação entre pais e filhos). Se trata de respeitar os pais simplesmente por serem pais, por serem os progenitores que nos trouxeram ao mundo e por nos terem dado a vida – ainda que depois disso eles nunca mais tenham feito nada em prol dos filhos.

Como mencionado no início do texto, repare que o mandamento não pede que amemos aos pais. Se por acaso você teve a infelicidade de ser filho de pais realmente ruins e que te fizeram mal, você não tem obrigação alguma de amá-los, querê-los bem ou até mesmo se relacionar com eles de maneira carinhosa. Nada disso lhe é pedido.

Do mesmo modo, é importante perceber que o mandamento não exige que se obedeça aos pais, mas que se os respeite. Para muita gente, respeitar é sinônimo de obedecer, mas essa não é, nem de longe, a visão da Torá.

Repare, ainda, que o mandamento não pede que se ame os pais. Em casos de relações familiares extremamente descompensadas e abusivas, é muito comum (mais comum do que pensam alguns) que os filhos não consigam mais sentir amor pelos pais. Pela Torá, está tudo bem, não é isso que se está exigindo.

Desses dois últimos pontos depreende-se que muitas vezes os filhos podem (e, dependendo do caso, até devem) desobedecer aos pais, mas nunca desrespeitá-los. Não cabe em um texto sucinto como esse explorar em que contextos os casos de desobediência são permitidos, mas muitas vezes basta usar o bom senso.

Para finalizar o texto, nada melhor do que exemplificar atitudes que são consideradas respeito aos pais para a Torá: perguntar como os pais estão e falar-lhes de maneira respeitosa; não sentar no lugar dos pais ou usar objetos pessoais deles; se preocupar e cuidar de suas necessidades básicas, como alimentá-los, vesti-los; não envergonhá-los em público etc.

21 respostas

  1. Perfeito! Concordo totalmente, sou de uma Época que se Respeitava muito os Pais!

    1. Belo texto.

      Seria interessante saber em quais contextos a desobediência é oficialmente permitida já que desobedecemos mesmo sem saber.

  2. Lendo o texto percebo que meus pais foram muito bons no aspecto respeito, além de respeitá-los me ajudou inclusive por extensão a respeitar os mais velhos, professores e também os amigos!
    Bom tema professor, estou lendo o livro Pirkê Avot, que aborda entre outras coisas este assunto.

    1. É difícil entender o respeito por um pai que nunca se deu ao respeito, progenitores que viveram a vida ao seu Bel prazer, que relataram a família como algo totalmente sem importância, que tratou com descaso os filhos, que só deixou um rastro de desprezo, desdém, deboche e até calúnias levantou sobre a vida é comportamento dos filhos, em sua velhice com as doenças consequências da própria vida sem regras e perfídia que viveu, e por não ter conquistado para si o mínimo para envelhecer com dignidade, porque viveu um vida sem nenhuma dignidade, depende do teto e dos cuidados de quem desprezou, que não construiu um relacionamento, vínculo algum, ficando somente o vínculo de sangue e o fato de ser progenitor, que outros sentimentos esse filho, ou essa filha, no caso eu mesma que vos falo pode oferecer senão desprezo por tudo que ele representa? Cuidar desse pai tem nome custado sentir emergir sentimentos de dor profundas, tem me custado experimentar o sentir ódio que não pensei ser capaz, tem me custado desejar que ele deixe de existir, tem me custado um esforço profundo para não fazer algo que eu possa me arrepender, tem me custado encarar trevas profundas, solidão, e tristeza. Todos os dias ele recebe os cuidados de alimentação, medicação, higiene, às custas da dor que né causa pela vida que não tive.

      1. Puxa vida, que situação difícil. Mas saiba que neste mundo não existe remédio apenas para a morte. Ao enchermos nossa mente com textos como esse não tem como não ocorrer uma mudança em nossas vidas. Você não está mais sozinha pra enfrentar tudo isso.

    1. Perdão pelo desabafo anterior, devo dizer que esse texto me aliviou muito porque não sinto amor por ele e isso me angustiada, saber que não preciso amar tampouco conviver me traz um pouco mais de paz, como tenho que conviver tenho buscado ajuda para prosseguir.

  3. Que texto bacana e leve sobre um tema tão pesado para certas pessoas. A sua interpretação da Torah acerca desse mandamento esclareceu dois conceitos que não devem ser confundidos: o amor e o respeito.

  4. Oi Yair, que explicação linda e clara! Todos os filhos poderiam ler. Eu como filha aprendi mais um pouqinho lendo esse texto, gostei muito. Nunca é tarde, não é mesmo? Obrigada!!!

  5. Maravilhoso texto . Eu sou de uma época que o respeito era fundamental. Meus pais sempre diziam respeita você em primeiro lugar só assim vai poder respeitar os outros . Devo muito a tudo que meus pais me deram

  6. Devemos honrar nossos pais, tipo, mesmo não convivendo convidá-los para o casamento, seria um exemplo de respeito.

    1. Concordo com o texto. Porém, pergunto se os pais também não deveriam respeitar seus filhos? Não os humilhando perante à família ou estranhos? O respeito não deveria ser mútuo, embora claro, saibamos sobre a importância dos pais?

  7. Observando conceitual popular onde os pais serem exemplos para os filhos, independente dual visão adquirida pelo filho (bons ou não), permanecem grandes referências, pois cabe somente ao observador classificar e se identificar entre tais comportamentos, determinando entre fazer ou não da mesma forma!

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