Tornar-se divino

Avançado (Avançado)

“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou” (Gênesis 1:26-27).

Segundo a Bíblia, somos criados à imagem e semelhança de Deus. A Cabalá nos diz, no entanto, que, obviamente, essa imagem e semelhança não são físicas, mas da essência. O que o texto bíblico ensina é que a essência divina se encontra no homem, e que os poderes e capacidades divinos também são poderes e capacidades humanos.

Como qualquer poder, o poder divino em nós pode ou não ser exercido. O poder é um estado potencial do ser, que não necessariamente se manifesta. De modo mais simples, portanto, podemos dizer que nossos atos podem nos fazer seres mais divinos e mais semelhantes a Deus ou o oposto disso.

Para a Cabalá, é imperioso que coloquemos esse potencial divino para operar na prática. A necessidade de se tornar semelhante ao Criador é vista várias vezes no texto bíblico, em geral com frases como “sejam santos assim como Deus é santo” ou similares (cf., por exemplo, Lev. 19:2; Deut. 10:12, 11:22, 26:1).

Antes de prosseguirmos na exploração dessa ideia, cabe uma importante ressalva. O homem deve ser como Deus, mas não deve aspirar a ser Deus. Ou seja, o homem deve fazer com que sua essência e vivência seja como a de Deus, mas ele não deve jamais achar que é de fato Deus, e que Ele pode ser substituído.

Em termos mais modernos, poder-se-ia dizer que o que a Cabalá sugere é que sejamos como Deus sem, no entanto, a parte egóica do nosso ser, sem nos considerarmos seres supremos, superiores ou coisas do tipo.

Na verdade, assim como a Torá pede várias vezes que sejamos divinos, ao mesmo tempo ela nos lembra várias vezes os efeitos catastróficos de pensarmos que somos Deus, e como esse tipo de crença do ego leva à queda e à destruição do homem (o melhor exemplo disso, a meu ver, é a história da Torre de Babel).

Feitas essas ressalvas, voltemos ao ponto desse artigo: a necessidade de tornar-se divino.

Para vários Sábios do Midrash (como Aba Saul e Chama bar Chanina), tornar-se divino significa imitar a Deus em atos. Por exemplo, diz o Talmud: “Assim como o Eterno veste os desnudos, tu também deves vestir os desnudos. Assim como o Eterno visita os enfermos, tu também deves visitar os enfermos. Assim como o Eterno consola os desolados, tu também deves consolar os desolados. Assim como o Eterno enterra os mortos, tu também deves enterrar os mortos”.

A ideia de imitar a Deus em atos foi a base que permitiu ao cabalista Moshe Cordovero produzir uma obra como Tomer Devora (A Palmeira de Débora, ou a Tamareira de Débora). Trata-se de um livro no qual o autor menciona todos os atributos divinos (que se podem depreender pela estrutura da Árvore da Vida e suas sefirot) e instiga o leitor a manifestar esses mesmos atributos em sua vida diária.

Num primeiro momento, no entanto, esse conceito pode parecer indicar que a imitação de Deus se trata de uma questão puramente ética: o que fazer e o que não fazer; como agir com os traços divinos e evitar os traços que não são considerados tão divinos assim.

De fato, esse é o entendimento de filósofos do judaísmo, como Maimônides – que é um dos teóricos que mais se aprofundou sobre a ideia de imitar a Deus. Para ele, imitar a Deus é um mandamento da Torá (mandamento positivo 8) e, mais do que isso, um dos melhores modos de seguir o que ele define como “o caminho do meio”.

No entanto, para a Cabalá, tornar-se divino é mais do que apenas imitar a Deus. Mais do que atos, uma das coisas que mais nos faz sermos como Deus é adquirir sabedoria – sobre o próprio Deus, sobre o mundo, sobre o ser humano, sobre nós mesmos.

Se lembrarmos que um dos atributos divinos é o da Onisciência (saber de tudo), quanto mais chegamos perto desse nível, mais estamos emulando a Deus. Obviamente, ao ser humano é impossível ter a onisciência plena como a do Criador, mas um dos grandes ensinamentos cabalísticos diz: “não é porque um objetivo não pode ser conquistado totalmente que você precisa ignorá-lo”. Certamente nunca poderemos saber tudo sobre tudo, mas nada impede que tenhamos cada vez mais conhecimento e sabedoria sobre a realidade e o mundo. Sendo assim, devemos buscar por isso dentro de nossos limites e de nossas capacidades.

Os grandes humanistas da Idade Média (séc. XIV – XV) entenderam muito bem esse conceito, e é por isso que essa época da história humana nos legou verdadeiros gênios, cujos conhecimentos e sabedoria se estendiam a vários campos do saber humano: gramática, matemática, ciências naturais, artes etc. Talvez o exemplo mais ilustre e icônico disso seja o polímata Leonardo da Vinci. Os humanistas viam na sabedoria e no conhecimento a forma de elevar o homem ao seu máximo potencial (daí o nome “humanismo”).

Para além dos atos e do conhecimento/sabedoria, há um terceiro elemento mais que nos assemelha ao Eterno: o poder de criação. Nesse sentido, é curioso pensar que os primeiros ensinamentos a respeito de Deus na Bíblia não são para mostrar algum atributo moral/ético Dele. A Bíblia não está preocupada – pelo menos logo de cara – em ensinar como Deus é bom, misericordioso, ou onisciente. Suas primeiras palavras são dedicadas a mostrar como Deus é o criador de todas as coisas. E nós, criados à imagem e semelhança Dele, temos o mesmo poder.

Nesse ponto, é interessante lembrar que a criação humana pode se manifestar nas mais diversas formas – desde a biológica até a mágica (veja o post sobre o Golem), passando pelas criações artísticas e laborais, por exemplo.

Alguns gramáticos e filólogos do hebraico bíblico perceberam que o verbo “criar” (ברא, bará) na Bíblia Hebraica se aplica apenas para Deus como sujeito e é, portanto, um verbo único e exclusivo do poder divino. Sendo assim, quando conseguimos nós também “criar”, estamos nos apropriando de um atributo divino (talvez o mais divino de seus atributos) e nos tornado como Deus.

Por isso, para a Cabalá, uma das coisas mais grandiosas que uma pessoa pode fazer é ser criadora da sua realidade. Novamente, não por uma questão de ego e para se sentir “no centro do controle e do poder”, mas porque a pessoa que cria a sua realidade como a deseja está exercendo um atributo divino e tornando-se divina e, assim, sendo fiel à sua essência e ao próprio propósito de sua criação. Um famoso Midrash diz que Deus criou o ser humano para que ele fosse um co-criador do Universo. Assim como vemos Deus criando o Universo do jeito que Ele deseja, o ser humano divinizado deve criar o seu mundo e a sua realidade conforme a sua vontade.

Portanto, cabalisticamente falando, toda vez que você faz as pequenas escolhas básicas do dia a dia, você está usando do seu poder criativo e de decisão para criar a sua realidade. Quando você decide, por exemplo, que estilo de vida levará, que tipo de pessoa será, como conduzirá seus relacionamentos, que espaço dará para a espiritualidade em sua vida, que traços de caráter cultivará e quais tentará polir, etc, em tudo isso você está exercendo o seu poder de criar a sua realidade.

Muitas vezes vivemos um estilo de vida por estarmos na inércia e por estar aceitando padrões que nos foram legados sem que questionássemos. Fazemos certas coisas e vivemos de certo modo apenas por comodismo, e nada mais. Trabalhamos em certa área da cidade, vivemos em certo lugar e nos divertimos com certos prazeres simplesmente por condicionamento; quando, na verdade, preferíamos ter outro trabalho, viver em outro local, ter outro estilo de vida e nos dedicarmos a outras atividades de lazer. Viver assim é não ser criador da sua realidade. Por outro lado, qualquer passo que reverta essa condição torna o ser humano mais divino, por ser mais criador.

Gosto de uma metáfora que uso em meus cursos. Algumas pessoas vivem a vida como se estivessem no banco do carona; já outras vivem como se sentassem no banco do motorista e assumissem o volante.

Todos esses níveis de criação são básicos – ainda que pouco utilizados pelas pessoas – e relativamente simples de se empregar.

Um nível algo maior e mais complexo do poder de criação vem por meio do trabalho e ofício exercido (não só no sentido laboral, mas às vezes a uma arte a que a pessoa se dedica). Nesse nível, a criação da realidade se dá através das obras e produções individuais. É como se um indivíduo criasse um “legado” produtivo através de seu labor, e, obviamente, isso cria a realidade (por sinal, com essa criação é possível alterar até mesmo a realidade do mundo de certo modo).

Por fim, pode-se falar dos níveis mais elevados de criação; que anteriormente chamamos de “mágicos”. Esses são níveis mais complexos e exigem um pouco mais de treino. São criações que, quando ocorrem, alguns consideram “milagrosas”. Esse nível se manifesta quando, por exemplo, se usa o poder criador (em especial o da mente) para alterar uma condição de doença para uma de saúde. Hoje há cada vez mais pesquisas e estudos sendo feitos a respeito desse poder da mente e como ele pode ser usado para alterar a realidade. No meio religioso, é o que alguns chamariam de fé, e que permite tanto curar doenças “incuráveis” como realizar outras proezas mais. É usando esse tipo de criação – juntamente com as do primeiro nível, das escolhas – que somos totalmente capazes de criar uma sensação interna de felicidade constante, de propósito na vida, ou de estar vivendo uma existência plena e significativa.

29 respostas

  1. Tornar-se divino resume bem nosso propósito. O texto descreve de forma perfeita nossas lutas e desafios diários. Sermos a causa de nossas vidas e criar a realidade que desejamos.

    Por meio da mente ja consegui alterar a realidade de quadro grave de saúde. O grande desafio é não se deixar levar pelo ego e mantermos sempre a nossa consciencia elevada.
    Agradeço pois mais um conhecimento maravilhoso que compartilhou

    1. Olá Rabino Yair! Como é bom adquirir Sabedoria contigo! Amei teus ensinaamentos baseados na Torah, no Talmud, na Kabalah, nos nossos Sábios: Como “Tornar-se Divino”! Todá rabá

    2. O ponto alto creio que está na simplicidade na transmissão do conhecimento sem ser simplório. Atos que indicam o domínio consciente das escolhas é fator determinante na criação da nossa realidade. Eu escolhi seguir a sabedoria da Kabbalah muito por concordar com a seriedade e humildade de professores como o Yair Alon, pois para escolhermos bem precisamos de bons professores, que não nos fazem perder tempo com veleidades. Mas ainda assim são amorosos e generosos. Recomendo muitíssimo esse texto!!!

    3. Excelente texto Yair! Foi o primeiro que abriu quando cliquei em um link lá no YouTube e apesar de ser do nível avançado sua maneira de abordar o tema prende e elucida até o final ! Gratidão !????

  2. Olá Rav, excelente texto, esclarecedor e oportuno.
    Para quem ler, entender e quiser praticar essa co-criação eu indico a Cabalá Prática – Maassê Raziel.
    Hoje me sinto sintonizado, em uma sincronia “milagrosa” com esse propósito de vida, a leitura deste post e o vídeo do Zôhar Diário.
    Obrigado Rav Yair Alon por todos os ensinamentos, são valiosíssimos. Shalom!

  3. Ótimo texto. Você tem a capacidade de colocar qualquer tema de forma a ser entendido em qualquer nível.

  4. Querido Rav, a simplicidade das suas palavras tornam a compreensão de todos ensinamentos e sabedoria da Cabalá maravilhosos pois realmente consigo entender,parece mágico, assim como uma criança que está aprendendo tudo e se encantando com as cores , sabores, sentimentos, melodias que estar vivo proporciona.
    Serei grata eternamente.

  5. MARAVILHOSO!!!!!!!!!!!!!
    Vocês são impressionantes. O mundo precisa conhecer e reproduzir essa lucidez que existe no povo hebreu.
    Amo cada dia mais!!!!!!

  6. Bom dia, Senhor Yair Alon!

    Visitei seu Blog pela primeira vez, apesar de acompanha lo desde que o vi explanar no canal Os conhecimentos da Humanidade, ao lado do Bruno e do Leo e desde entao, tenho aprendido a cada video seu (e agora em texto) seus ensinamentos profundos, principalmente os da Cabalah,o qual tanto me interessa em meu caminho espiritualista.
    O agradeco de coracao por seu trabalho e afinidade ao destara os nos de tanta sabedoria.Um abraco de Berlim,
    Adriane Queiroz.

  7. Interessante quando explica que quando uma pessoa consegue definir uma rotina e, de fato, colocar em prática o quanto a espiritualidade e os bons hábitos de toda ordem terão em sua vida, ela também está exercendo um atributo divino da Criação.
    Nunca tinha refletido nesta grande verdade sobre esta ótica.
    Muito obrigado, nobre Yair!

  8. Olá mestre Yair!!!!
    Quanta Luz nas suas palavras…e eu não tenho nenhuma para dizer o quanto seu conhecimento,sua dedicação em transmitir para nós tão grandiosas pérolas.Seus estudos, trazem um alimento sólido de vida e crescimento. Muito obrigada por eu ter essa chance de poder fazer parte do partilhar de tanta Luz através do seu conhecimento, e por isso tenho certeza de que está a cada dia se tornando divino e nos ajudando também a alcançar um pouco dia-a-dia.
    Obrigada
    Oneide Veloso Telles da Silva

  9. Gostei . muito da mensagem. Vou continuar curtindo seu blog e divulga-lo. Um abraço, SHALOM

  10. Uma maravilhosa e muito pertinente reflexão! Usarei o texto nas reflexões de minhas aulas com os alunos e colegas do magistério. Parabéns Yair pela lucidez e profundidade de tuas palavras que nos estimula à VIDA! Somos teu seguidor, eu e mina esposa, lemos tuas obras( partimos de ” Almas Gêmeas”…) e tuas orientações nos ajudou muito, nos deu norte a nossa existência como seres eternos, te admiramos muito!

  11. Excelente texto! Somos, de fato, co-criadores de nossa própria realidade, e melhor ainda quando temos consciência de nossa essência divina.

  12. Podermos mudar nossa história e nosso momento histórico chega a seu urgente. Que D’us nos dê sabedoria e entendimento.
    Obrigada Yair

    1. “Algumas pessoas vivem, como se estivessem sentadas no banco do carona…” Sinto em minha vida, que oscilo entre estar no banco do carona e ora assumindo o volante.
      Para sermos de fato um co-criador com Deus devemos estar num estado de vigília constante para não cairmos no erro de delirar como o povo de Israel que criou o bezerro de ouro, nem no pecado dos espiões que ficaram paralizados de medo.
      Já atingi várias vezes o nível de motorista, porém no momento me sinto como devo humildemente reaprender tudo desde as noções das placas trânsito, nisto as reflexões e estudo que estou fazendo com Rav. Yair
      tem sido fundamental.

  13. Muito obrigado, por seus ensinamentos.
    Porém é tão difícil alcançar, estes objetivos tão elevados, ainda mais em mundo de transição, mas que a luz do Altíssimo chegue até nós.

    Grande abraço.

    Força sempre

  14. Ser responsável pela própria existência talvez seja nosso principal desafio. Tornar-se um ser capaz de colocar em prática todo nosso potencial é uma missão digna de nossa existência.

  15. Riquíssimo ensinamento Rav Yair, desta forma inigualável que sempre desenvolve seus textos e vídeos. Que venham mais joias como essas! Que o Eterno lhe abençoe sobremaneira!!!

  16. Excelente texto Yair! Foi o primeiro que abriu quando cliquei em um link lá no YouTube e apesar de ser do nível avançado sua maneira de abordar o tema prende e elucida até o final ! Gratidão !????

  17. “Algumas pessoas vivem, como se estivessem sentadas no banco do carona…” Sinto em minha vida, que oscilo entre estar no banco do carona e ora assumindo o volante.
    Para sermos de fato um co-criador com Deus devemos estar num estado de vigília constante para não cairmos no erro de delirar como o povo de Israel que criou o bezerro de ouro, nem no pecado dos espiões que ficaram paralizados de medo.
    Já atingi várias vezes o nível de motorista, porém no momento me sinto como devo humildemente reaprender tudo desde as noções das placas trânsito, nisto as reflexões e estudo que estou fazendo com Rav. Yair
    tem sido fundamentais.

  18. Vim pelo Zôhar Diário de hoje. Muito obrigado Rav, frequento o blog, mas esse eu não tinha visto. Agora sim Baruch HaShem!!!

  19. Um tema desafiador para quem quer evoluir espiritualmente, sem ocupar o lugar do Criador. Ter atitudes que se assemelham ao Divino, sendo um ser humano, Tornar-se divino na alma, na essencia do ser; dominar o ego, ou seja, deixar de andar no banco do carona, e assumir a direção de sua vida, em plenitude. Obrigada por mais essa excelente lição.

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