Desejo e Ego

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Não é difícil perceber que todo ser humano é um poço de desejos. Desde o momento em que nascemos passamos a desejar “coisas” – comida, carinho, conforto – e esses desejos jamais deixam de existir; pelo contrário, na maioria dos casos, só fazem aumentar.

Não foram poucas as filosofias que identificaram esse desejo como fonte do sofrimento humano – afinal de contas, se ele só aumenta isso significa que nunca poderemos satisfazer totalmente nossos desejos – e também não foram poucas as filosofias que, numa conclusão aparentemente bastante lógica, começaram a defender a eliminação dos desejos. A lógica é simples: eliminam-se os desejos, elimina-se o sofrimento humano.

Há um problema nessa visão, no entanto. Para a Cabalá, desejar é parte integrante, vital e essencial de quem somos. O ser humano é desejo e, mais do que isso, foi feito para desejar. Propor a eliminação do desejo é o mesmo que propor a eliminação do ser humano. É mais ou menos como pedir que um ser humano pare de respirar pois ao respirar ele pode inalar vírus e bactérias. Simplesmente não dá para viver e não respirar, assim como não dá para viver e não desejar. Ainda que alguém diga que conseguiu chegar e esse estado – de aniquilação total dos desejos – para a Cabalá isso não é vida. A pessoa está morta.

O que a Cabalá propõe que se faça com os desejos então?

A resposta é: basicamente nada.

Não há nada para se fazer com os desejos, exceto tentar satisfazê-los, o máximo possível.

Sim, é verdade que desejos podem ser causa de sofrimento – seria tolice negar isso – mas isso não significa que devo parar de desejar. Cada vez que eu desejo algo e não consigo o que quero, há um potencial para o sofrimento; mas, repito, não por isso preciso parar de desejar.

A Cabalá, então, diria: se você tem um desejo, tente ao máximo realizá-lo e torná-lo realidade.

Mas então os desejos são absolutamente saudáveis e positivos segundo a Cabalá?

Não, também não significa isso.

É muito fácil ver que somos capazes de ter desejos bem negativos ou que a tentativa de realizar nossos desejos (mesmo os bons) pode nos fazer mais mal do que bem. A Cabalá sugere, portanto, que atentemos para esse tipo de coisa, mas, novamente, sem a necessidade de eliminar desejos.

Para o primeiro ponto – termos desejos negativos – a Cabalá diz que isso às vezes ocorre quando não pensamos apropriadamente no que desejamos e passamos a buscar coisas que, se conseguidas, no fundo mais nos fariam mal do que bem. Em grande parte desses casos, a Cabalá diria que esses desejos negativos surgem quando estamos focados apenas em nós mesmos e nos nossos desejos mais imediatos e momentâneos.

O segundo ponto – a busca por satisfazer desejos acabar sendo negativa – pode ocorrer quando ficamos “obcecados” em conseguir algo, ainda que o algo que queremos seja positivo. Por mais que desejemos algo, a Cabalá ensina que tudo que desejamos deve sempre ter o seu valor ponderado e definido com base em outros desejos de nossa vida. Quando não conseguimos definir uma escala de prioridades entre os diversos desejos, pode ocorrer de começarmos a valorizar ou desejar algo que, na verdade, se parássemos para olhar, não é algo tão importante ou relevante assim. Pode ocorrer também de perseguirmos intensamente um desejo sem perceber que, com isso, estamos perdendo outra coisa que pode ser mais importante. Exemplo clássico: na busca de satisfazer o desejo de riqueza e prosperidade, acabamos perdendo a saúde (porque não conseguimos colocar o desejo pela vida no valor hierárquico correto).

Ao entender a importância do desejar e ao saber controlar os desejos de modo que eles não nos consumam ou devorem, a Cabalá acredita que é possível viver uma vida harmônica e saudável – em que se é verdadeiro à nossa essência e se busca a realização e a satisfação mais plena possível.

9 respostas

  1. Olá Yair! Cada vez mais tua fã, admirando tua Sabedoria e desenvoltura nos textos, bastante leves, de boa compreensão!
    Shalom Ubrachá! Todá Rabá! Shabat Shalom!
    Verinha Monti, Fortaleza, Ceará, Brasil

    1. Interessante exposição, é notório que em tudo na vida deve haver moderação, deve-se ponderar sobre a real necessidade e importância das coisas que buscamos conquistar e há sabedoria quando assim fazemos, por outro lado, ser conduzidos por nossas vontades e desejos desenfreados além de agirmos sem sabedoria causamos sofrimentos. O caminho do meio, o equilíbrio, é saudável e justo.

  2. Muito bom o texto professor, equilibrar os desejos, apesar de todos os apelos que vemos ao nosso redor é uma tarefa fundamental para o buscador espiritual! O movimento minimalismo faz uma boa reflexão sobre o tema também!

  3. Verdade …não devemos deixar de desejar, mas sim fazer uma escala de prioridades dos desejos.

    Gratidão Yair por compartilhar tal conhecimento.

  4. Olá Yair!

    Seu posicionamento equilibrado nas aulas e nas orientações é belo de ver. Muita sabedoria envolvida.

    Agradeço por tudo.

    —–
    Exemplo clássico: na busca de satisfazer o desejo de riqueza e prosperidade, acabamos perdendo a saúde (porque não conseguimos colocar o desejo pela vida no valor hierárquico correto).
    —–

  5. Seria uma analogia à frase: Tudo posso, mas nem tudo me convém. Precisamos ouvir a alma, e verifiar se o desejo é da alma ou do ego. Fazendo esse exercicio, fica mais fácil distinguir o caminho do meio. Que você tanto fala em seus videos. Aprendendo muito com você; obrigada por seus ensinamentos.

  6. Desmistificando praticamente tudo que se fala sobre desejo, a Cabalá novamente me surpreende com uma abordagem incrível sobre esse tema tão controverso e polêmico, principalmente dentro do campo religioso. H’shem o abençoe grandemente prezado rav Yair.

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